É ela, Rosinha!

Por Luis Filipe Melo
Se a imprensa não fosse tendenciosa, a personagem desta semana seria Rosinha, com direito a entrevista exclusiva no Fantástico. Num país onde a todos os momentos se exalta a presidente Dilma como uma vitória das mulheres, é impossível – se houver imparcialidade – não enaltecer Rosinha, uma prefeita que liderou seu povo, que pela confiança que inspira, mobilizou a população de uma cidade, que foi às ruas para defendê-la e dizer não à corrupção. Mas Rosinha é a mulher do Garotinho, por isso a mídia prefere esconder da população o episódio histórico de Campos, e o papel que ela representou que deveria ser louvado pelo exemplo que deu ao Brasil.
Mas peço licença aos leitores – e ao chefe, é claro – para fazer justiça com Rosinha. Confesso que me emocionei vendo as fotos de Rosinha nessa batalha travada nos últimos dias, em Campos. Mas, uma cena que se repetiu e foi mostrada várias vezes aqui no blog foi marcante para mim. Na maioria das fotos, ao lado de Rosinha, de braço dado com ela, a apoiando o tempo todo estava a sua filha Clara, assim como os outros filhos.
Para vocês entenderem porque essa cena foi marcante para mim devo lhes dizer que conheci Rosinha quando estava grávida de Clara, que por muitos anos foi a Clarinha, hoje está quase uma mulher. É, Garotinho e Rosinha, estamos ficando velhos! Hoje, a Clarinha virou companheira de luta da mãe.
Por conta de tudo o que aconteceu esta semana foi inevitável me virem à lembrança inúmeros episódios que testemunhei e participei ao lado de Rosinha, nestes últimos 18 anos. Vou contar aqui só alguns para que vocês conheçam um pouco mais dessa mulher guerreira.
Em 93, quando Garotinho veio para o Rio e fazia programa na Rádio Tupi, quando o conheci e comecei a trabalhar com ele, aos sábados retornava para Campos, onde morava a família. Garotinho nunca aprendeu a dirigir, nem tinha motorista. Rosinha todas as sextas-feiras viajava de Campos para o Rio dirigindo o carro, e no sábado, depois do programa levava Garotinho para Campos. Assumia o volante, mesmo grávida de Clara.
Em 98, depois da vitória na eleição começou o dilema de onde morar no Rio. Rosinha não queria morar no Palácio Laranjeiras, ela dizia que aquilo ia acostumar mal os filhos, com toda aquela mordomia. No período de transição, entre a eleição e a posse, Rosinha procurou casas para alugar que dessem para acomodar toda a família, ela, Garotinho, na época 8 filhos, Davi veio depois, mais a mãe de Garotinho, dona Samira. Quando os proprietários sabiam que era para a família do governador colocavam o preço lá em cima. Não houve jeito e foram morar no Palácio Laranjeiras. Sabem qual foi a primeira providência de Rosinha, no primeiro dia? Mandou desligar as campainhas que havia nos quartos para chamar a copa e os garçons e determinou aos filhos, quem quiser lanchar ou comer alguma coisa desce e vai à cozinha pedir. Não queria mordomias que estragassem a educação das crianças.
Como secretária de Ação Social, do governo Garotinho, já contei essa história aqui no blog, Rosinha de noite acolhia a população de rua, mas não queria a imprensa acompanhando para não dizerem que estava fazendo marketing. Sem flashes e contrariando a orientação da segurança sentava na calçada, em cima dos papelões onde estavam moradores de rua, bêbados e sujos, os abraçava e convencia a irem para o abrigo, e os acompanhava, tomava sopa com eles e lhes dava carinho até altas horas da madrugada.
Como governadora não se deslumbrou e continuou sendo a pessoa simples de sempre. Acreditem, mas ia na SAARA, na rua da Alfândega, comprar o material escolar dos filhos, apesar de receber críticas até de pessoas próximas que diziam que não pegava bem sendo ela governadora.
Agora vou contar uma história engraçada, mas que revela a simplicidade de Rosinha. Numa sexta-feira, quando era governadora, Rosinha ia com os filhos para Campos. Tinha o helicóptero do Estado à disposição, mas disse que estava com saudades de dirigir e pegar a estrada para Campos, porém sabia que Garotinho não ia querer que ela pegasse o volante. Me lembro que a segurança ficou enlouquecida. Só ouvia o pessoal pelo rádio falando agitado o nome Esmeralda para lá, Esmeralda para cá. Para quem não sabe Esmeralda era o nome de código usado pela segurança nas comunicações. Garotinho era Diamante. Os filhos eram Pérola, Rubi e outras pedras preciosas que não me recordo mais. Bem, o fato é que foi um carro de segurança na frente e outro atrás e a major ajudante-de-ordens, na Sprinter conduzida pela governadora com os filhos atrás. Na hora da saída eu estava no pátio do palácio fumando quando vi Rosinha se dirigindo à porta do motorista. Ela olhou para mim e com um sorriso de alegria disse: “Filipe não fala nada pra Bolinha!”. Acenei concordando e fiquei rindo sozinho, pensando como a felicidade, a alegria de viver, pode estar em coisas tão simples, não está no luxo, nas mordomias. E lá foi ela…
Poderia relatar aqui muitas histórias, mas não vou me alongar. Quero apenas tocar num dia muito triste para Garotinho, Rosinha e seus filhos, quando a Polícia Federal entrou na sua casa, numa trama forjada, alegando que procurava armas e dinheiro. Eu estava lá e acompanhei todo o constrangimento. Está vivo na minha memória, o momento após o Jornal Nacional ter feito um verdadeiro massacre, quando Rosinha chamou Garotinho e todos os filhos para uma conversa em família, para lhes explicar tudo o que estava acontecendo e lhes mostrar que tudo o estavam dizendo de Garotinho era mentira. Naquela hora, eu e Fernando Peregrino nos despedimos para deixá-los à vontade. Descendo a escada da casa, tomados pela indignação e a emoção, comentávamos sobre o sofrimento deles (Rosinha e Garotinho) por causa dos filhos. Dizer-lhes o que? Como explicar-lhes e fazê-los entender?
Hoje todos os filhos cresceram e podem entender as coisas. Devem ter sofrido um bocado na escola, com os amigos. Mas vendo tudo o que aconteceu em Campos esta semana, eles devem estar orgulhosos dos pais que têm. Se fossem o que a imprensa diz deles, nunca teriam o povo do seu lado, se oferecendo para defender e lutar ao lado de Rosinha. E as imagens que mostramos no blog não deixam dúvidas de que o povo foi pra rua e parou Campos em apoio a Rosinha, todo o tipo de gente.
Enfim, num país tão carente de bons exemplos, Rosinha merecia ser destacada pela mídia, ser a personagem da semana, assim como a batalha de Campos deveria estar nas manchetes pelo que representou, uma reação popular por justiça e contra a corrupção, como há muito não se vê neste país. Mas os poderosos devem estar ainda mais assustados, jamais abririam a guarda. Um dia a história fará justiça.
Desculpem ter me estendido. Nos últimos dias enquanto o povo de Campos e Rosinha acampavam na prefeitura, eu acampei em casa, colado ao computador, comendo lasanhas semi-prontas quase queimadas porque Garotinho me ligava seguidamente passando novas informações e eu esquecia o forno. Enlouquecido com um monte de arquivos de fotos, vendo as imagens era impossível não me emocionar, assim como foi inevitável recordar a trajetória de Rosinha.
Encerro lembrando o jingle de campanha de Rosinha que dizia: “É ela que renova a esperança…”. As cenas que assistimos nos últimos dias não deixam dúvidas: Rosinha cumpriu o que prometeu e com honestidade, com trabalho, renovou a esperança do povo de Campos. Dá para entender o desespero dos adversários.